SAÚDE EM ALERTA
Dia Mundial sem Tabaco reforça alerta sobre avanço dos vapes entre jovens
Especialistas apontam que cigarros eletrônicos cada vez mais tecnológicos e discretos ampliam o risco de dependência e doenças graves
01/06/2026
08:00
REDAÇÃO
MARIA GORETI
Dispositivos eletrônicos com formatos camuflados e recursos digitais preocupam especialistas pelo aumento do consumo entre adolescentes. © Joédson Alves/Agência Brasil
Celebrado em 31 de maio, o Dia Mundial sem Tabaco deixou um importante alerta para a sociedade: o avanço do uso de cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens adultos. Especialistas afirmam que os novos dispositivos estão cada vez mais sofisticados, discretos e atrativos, dificultando o combate à dependência da nicotina.
Embora a comercialização de cigarros eletrônicos continue proibida no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o consumo cresce de forma preocupante. Os produtos são facilmente encontrados em redes sociais, sites e no comércio informal.
De acordo com o diretor executivo da Fundação do Câncer, o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, a indústria vem investindo em formas de tornar os dispositivos praticamente imperceptíveis.
Entre os exemplos estão vaporizadores incorporados a acessórios do dia a dia, como moletons, cujo bocal fica escondido nos cordões do capuz. Há também aparelhos com aparência semelhante a pen drives, controles eletrônicos e outros dispositivos tecnológicos.
"Estamos vendo produtos criados para facilitar o uso sem que outras pessoas percebam. Isso aumenta o risco de dependência precoce e dificulta a fiscalização", alerta Maltoni.
Os números reforçam a preocupação dos especialistas.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 mostram que a experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos passou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024.
O crescimento também aparece nas operações de combate ao comércio ilegal. Entre janeiro e fevereiro de 2026, a Receita Federal apreendeu 238.801 unidades de cigarros eletrônicos em todo o país, média superior a 4 mil dispositivos por dia.
Segundo especialistas, muitos usuários acreditam que os vapes são menos prejudiciais que o cigarro tradicional, mas essa percepção não corresponde à realidade.
A consultora da Fundação do Câncer para a área de tabagismo, Milena Maciel de Carvalho, destaca que a exposição à nicotina durante a adolescência pode comprometer o desenvolvimento cerebral.
Entre os principais efeitos estão alterações na atenção, memória, aprendizagem, controle dos impulsos e regulação emocional.
Além disso, os dispositivos podem liberar substâncias tóxicas, partículas ultrafinas, compostos químicos e metais pesados associados a doenças respiratórias, cardiovasculares e ao aumento do risco de câncer.
Outro fator que preocupa os especialistas é a incorporação de recursos digitais aos aparelhos. Alguns modelos contam com jogos, música, mensagens e até sistemas de alerta que incentivam o uso contínuo, fortalecendo a dependência.
Para ampliar a conscientização sobre os riscos dos cigarros eletrônicos, a Fundação do Câncer lançou a campanha "Spoiler: ele não te ama", voltada principalmente ao público jovem.
A iniciativa busca desmistificar a imagem moderna e inofensiva dos vapes, mostrando que os dispositivos podem causar dependência e trazer consequências sérias para a saúde.
Especialistas defendem o fortalecimento das ações de fiscalização, o combate ao comércio ilegal e campanhas permanentes de educação para conscientizar a população.
A orientação é que pais, responsáveis, professores e profissionais da saúde mantenham diálogo constante com adolescentes sobre os riscos do consumo de nicotina e estejam atentos aos novos formatos dos dispositivos eletrônicos.
Mesmo após o Dia Mundial sem Tabaco, celebrado no último sábado, a mensagem permanece atual: prevenir o primeiro contato com a nicotina continua sendo a forma mais eficaz de proteger a saúde e evitar uma nova geração de dependentes do tabaco.
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