DESIGUALDADE NA MÚSICA
Apenas 10% dos direitos autorais no setor musical vão para mulheres
Estudo aponta desigualdade de gênero na indústria e revela que rádio e shows são os segmentos mais lucrativos para elas
15/03/2026
09:00
REDAÇÃO
MARIA GORETI
Estudo da União Brasileira de Compositores aponta que mulheres recebem apenas 10% dos direitos autorais na indústria musical brasileira © Marcello Casal JrAgência Brasil
Estudo da União Brasileira de Compositores (UBC) aponta que apenas 10% dos direitos autorais na indústria da música foram destinados a mulheres em 2025. Entre os 100 maiores arrecadadores de direitos autorais no país, somente 11 são mulheres. Ainda assim, houve avanço na posição feminina no ranking, com a melhor colocação passando do 21º para o 16º lugar.
Os dados fazem parte da edição 2026 do relatório Por Elas Que Fazem Música, que analisa a presença feminina e a desigualdade de gênero no setor musical.
Segundo o levantamento, as autoras concentram 73% do total recebido pelas mulheres. Já as intérpretes representam 23% da arrecadação feminina, enquanto musicistas executantes ficam com 2%. Versionistas e produtoras fonográficas aparecem com apenas 1% cada.
O estudo também apontou crescimento na participação feminina no cadastro de obras e fonogramas. Em 2025, o número de fonogramas registrados por produtoras aumentou 13%, enquanto as obras cadastradas por autoras e versionistas cresceram 12%.
Para a UBC, os dados indicam avanço gradual da presença feminina não apenas como intérpretes, mas também nos bastidores da produção musical. Mesmo assim, a entidade avalia que ainda há necessidade de fortalecer a participação das mulheres em diversas áreas do setor.
Desde a primeira edição do relatório, em 2017, o número de mulheres associadas à entidade aumentou 229%. Apesar do crescimento, a entidade destaca que esse avanço ainda não se reflete de forma proporcional nos rendimentos obtidos pelas profissionais.
A pesquisa também mostra que a maior concentração de mulheres no setor musical está nas regiões Sudeste, Nordeste e Sul, que juntas reúnem 88% do total. O Sudeste lidera com 60%, seguido pelo Nordeste com 17% e pelo Sul com 11%. O Centro-Oeste aparece com 8% e o Norte tem a menor participação, com 3%.
Em paralelo ao estudo, a UBC realizou um levantamento digital com mais de 280 mulheres no primeiro bimestre de 2026 para avaliar casos de assédio e violência no ambiente profissional. Entre as entrevistadas, 65% afirmaram ter sofrido algum tipo de assédio no trabalho, sendo o sexual o mais citado, com 74% dos casos, seguido do verbal (63%) e do moral (56%).
Em relação à violência, 35% relataram ter sofrido algum tipo de agressão. A psicológica foi a mais mencionada, com 72%, seguida por toque físico sem consentimento (58%) e violência verbal (38%).
A pesquisa também apontou situações de discriminação no ambiente profissional. Entre as entrevistadas, 63% disseram ter sido ignoradas ou interrompidas em contextos de trabalho, 59% ouviram comentários que desqualificaram sua competência e 57% afirmaram sofrer maior cobrança para provar capacidade.
Outro ponto abordado foi o impacto da maternidade na carreira. Entre as mulheres com filhos, 60% disseram ter percebido interferência no desenvolvimento profissional, principalmente pela redução de convites, oportunidades e viagens para turnês.
No campo financeiro, os segmentos de rádio e shows foram os mais lucrativos para as mulheres, cada um representando 17% da arrecadação total feminina. O streaming aparece em seguida, com participação de 11%, enquanto o cinema registra a menor fatia, com apenas 0,5%.
A música é a principal fonte de renda para 55% das entrevistadas, enquanto 29% afirmaram que a atividade não é a principal forma de sustento.
Desde 2023, a cantora e compositora Paula Lima ocupa a presidência da entidade, tornando-se a primeira mulher a assumir o cargo. A direção da UBC também conta com a participação da cantora e compositora Fernanda Takai.
Segundo Paula Lima, ampliar a presença feminina em espaços de decisão é fundamental para transformar a indústria musical e reduzir desigualdades históricas.
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