ARTIGO
Entre o amor e o ódio
11/06/2024
07:45
Ricardo Viveiros*
Dia dos Namorados (Crédito: Freepik)
Na era digital, na dinâmica da modernidade, tudo mudou. Entretanto, algumas coisas boas e algumas coisas ruins permanecem como foram desde sempre. Muda apenas a forma. Eu sempre achei que ser namorado é o mais perfeito estado civil, pena que não é reconhecido como tal. A rigor, se fosse, talvez estragaria tudo.
???
Namorado é – o tempo todo – romântico, criativo, amoroso, apaixonado, atraente, conquistador, generoso, atento, amigo, cúmplice, amante, parceiro e, acima de tudo, compreensivo, paciente e corajoso. Marido e companheiro nem sempre. Namorado age como se tivesse um imenso compromisso, embora seja livre e respeite a liberdade da pessoa amada. Passa o tempo todo construindo a relação como se fosse um grande castelo. Namorado sonha, e realiza sonhos.
???
Namorado é determinado com a maior qualidade de uma relação: conquistar. E isso é o que lhe dá um estado de espírito diferente, especial e encantador. E relação sem encantamento não tem sucesso. Namorado diz palavras bonitas, faz surpresas, reinventa o mundo, transforma realidades. Namorado é o único ser repetitivo que não é chato, porque a pessoa amada adora ouvir de novo: “Eu te amo!”. E namorado sabe dizer isso a cada nova vez sem mais do mesmo, fora da caixinha.
???
Igual a tudo na vida, namorado tem princípio, meio e fim como determinou, na antiguidade clássica, o filósofo grego Aristóteles. Em suas famosas unidades, escritas entre 335 a.C. e 323 a.C., embora com outros afazeres, ele se ocupou de ensinar a como escrever poesia. Já havia o amor. Há, na vida, diferentemente do jeito maravilhoso de ser namorado, muitas coisas que mudam, de maneira drástica, com o tempo. E não têm as unidades aristotélicas, são eternas porque, como o amor, também o ódio e outros sentimentos menores fazem parte da alma humana.
???
Exemplo disso está em como mudaram os golpes de estado. O namorado incorporou apenas a tecnologia, envia palavras de amor pela internet. O político golpista mudou a forma de rasgar constituições, destruir democracias, desrespeitar liberdades. Comete crimes, aparentemente delicados, contra a sociedade, agora sem fuzis e canhões. O golpe, hoje, acontece de modo mais lento, desestruturando as instituições por dentro, em certos casos até com eleições.
???
É preciso estar atento e forte. Como no mais puro amor, lembrando sempre a necessidade da eterna vigilância contra o ódio. E reagir a qualquer tipo de sedução da consciência. Como todo dia é Dia dos Namorados, surpreenda a pessoa amada, seja quem for, dizendo o que provavelmente ela já sabe, mas que gostará de ouvir de novo e sempre: “Eu te amo”. E sorria, cante, dance, escreva, desenhe, brinque – o namorado tem licença para ser assim, um adorável maluquinho. Só o namorado, o político não!
???
*Ricardo Viveiros é jornalista e escritor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, é autor de vários livros, dentre os quais “Memórias de um tempo obscuro”. Apresenta o programa “Brasil, mostra a tua cara!”, sextas-feiras às 23 horas, na TV Cultura.
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.
Leia Também
Leia Mais
Anvisa prorroga prazo para funcionalidades eletrônicas do SNCR, mas mantém regras dos novos receituários
Leia Mais
Consumidores já podem concorrer ao próximo sorteio da Nota MS Premiada
Leia Mais
Anvisa amplia uso de medicamentos para tratamento de lúpus e esclerose múltipla em crianças e adolescentes
Leia Mais
Câmara de Ponta Porã encerra primeiro semestre com foco em ações sociais e integração na fronteira
Municípios