RECONHECIMENTO HISTÓRICO
Quilombo Tia Eva será o primeiro do país tombado pelo Iphan
Comunidade quilombola de Campo Grande inaugura novo Livro do Tombo criado para preservar memórias de antigos quilombos
09/03/2026
15:25
REDAÇÃO
Comunidade Quilombola Tia Eva, em Campo Grande, será a primeira do país oficialmente tombada pelo Iphan
A Comunidade Quilombola Tia Eva será o primeiro quilombo do país oficialmente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O reconhecimento marca também a estreia do Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos, criado para registrar e preservar locais ligados à história das comunidades quilombolas no Brasil.
A declaração oficial ocorrerá nesta terça-feira, 10 de março, durante a 112ª reunião do conselho consultivo do instituto. Segundo o presidente do Iphan, Leandro Grass, outros territórios quilombolas também deverão receber esse reconhecimento no futuro.
Ele destacou que a iniciativa representa um gesto de reparação histórica às comunidades quilombolas e reforça a importância da participação direta dos moradores no processo de reconhecimento patrimonial.
Moradora da comunidade, a arquiteta Rayssa Almeida Silva participou das etapas do processo de tombamento junto aos técnicos do instituto. Para ela, a medida representa um legado para as próximas gerações e uma homenagem aos antepassados.
Segundo Rayssa, o reconhecimento ajuda a valorizar a história da comunidade e a despertar o interesse das novas gerações, além de tornar mais conhecida a trajetória de resistência ligada ao território.
Histórico
O quilombo foi fundado pela benzedeira e ex-escravizada Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, considerada uma liderança importante na formação da comunidade e na história da população negra na região.
De acordo com o superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, João Henrique dos Santos, o tombamento reconhece o protagonismo de uma mulher negra que, após conquistar a liberdade, estabeleceu uma comunidade que se tornou símbolo de resistência e organização social.
Ao longo do tempo, o território que inicialmente era uma comunidade rural acabou sendo incorporado ao espaço urbano de Campo Grande, mantendo viva a tradição cultural e histórica da comunidade.
Tataraneto da fundadora do quilombo, Nilton dos Santos Silva afirmou que espera que o reconhecimento desperte maior interesse pela história do local e contribua para atrair visitantes e investimentos para melhorias na comunidade.
Processo de tombamento
O processo de tombamento começou nos primeiros meses de 2024, após diálogo entre técnicos do Iphan e moradores da comunidade.
O procedimento foi baseado na Portaria nº 135 de 2023, que regulamentou o reconhecimento de documentos e sítios relacionados à memória histórica de antigos quilombos.
A norma criou um Livro do Tombo específico para esses territórios e estabeleceu princípios como autodeterminação e consulta prévia, livre e informada das comunidades quilombolas.
A medida também reforça o reconhecimento do papel da população afro-brasileira na luta pela liberdade e valoriza a resistência histórica das comunidades quilombolas contra a escravidão e a discriminação.
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