ARTIGO
Quem lucra com as doenças?
23/02/2026
07:25
WILSON AQUINO
A medicina moderna é uma das maiores conquistas da humanidade. Vacinas, antibióticos, cirurgias, terapias avançadas e diagnósticos cada vez mais precisos salvaram milhões de vidas. É impossível negar: a ciência médica é, em muitos sentidos, um milagre construído com estudo, método e dedicação. O paradoxo é que, mesmo com tanto avanço, nunca convivemos com tantas doenças crônicas ao mesmo tempo e, pior, cada vez mais cedo.
Os números do Brasil chamam atenção. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde com base no Vigitel (2006–2024), a prevalência de diabetes entre adultos mais que dobrou, passando de 5,5% para 12,9%. No mesmo período, a obesidade avançou 118%, e o excesso de peso atingiu patamares alarmantes. (Serviços e Informações do Brasil)
Em termos práticos, isso significa uma sociedade que se torna, aos poucos, dependente de um modelo de sobrevivência: um comprimido para controlar, outro para compensar, outro para “equilibrar os efeitos colaterais”. E a vida segue… não necessariamente curada, mas “administrada”.
Não é conspiração. É estrutura. Aqui entra o ponto central: o modelo econômico atual premia mais o tratamento do que a prevenção. Ao mesmo tempo em que a medicina se fortaleceu, a alimentação foi sendo sequestrada pela lógica industrial. Alimentos deixaram de ser alimento e se tornaram produtos: ultraprocessados desenhados para durar mais, viciar mais, vender mais e custar menos no caixa, mas muito mais no corpo.
A ciência tem reforçado esse alerta. Estudos e análises apontam associação entre maior consumo de ultraprocessados e piores desfechos de saúde; uma meta-análise divulgada e comentada por pesquisadores ligados à USP destacou uma relação dose–resposta, em que aumentos no consumo se associam a aumento no risco de mortalidade por todas as causas. (Jornal USP)
E o custo social desse padrão não é abstrato. Ele aparece no orçamento público. Um estudo publicado na literatura científica de saúde pública estimou que, no Brasil, os custos diretos atribuíveis a hipertensão, diabetes e obesidade somaram R$ 3,45 bilhões (dados referentes a 2018). (SciELO SP). Em outra comunicação do próprio Ministério da Saúde, há referência de que, dos R$ 6 bilhões usados em 2019 no tratamento de doenças crônicas, cerca de R$ 1,5 bilhão foi atribuído ao excesso de peso e à obesidade. (Serviços e Informações do Brasil). Ou seja: paga-se caro para tratar, e investe-se pouco para evitar.
O mais inquietante é que a prevenção, embora seja amplamente defendida em discursos oficiais, raramente ocupa o centro das políticas públicas e das estratégias comerciais. Educar para escolhas saudáveis exige tempo, transformação cultural e, sobretudo, menor rentabilidade imediata. Investir em alimentos naturais, urbanismo que favoreça caminhada, esporte nas escolas e campanhas permanentes de orientação nutricional produz resultados a longo prazo — mas o mercado opera, em geral, na lógica do curto prazo. E nessa engrenagem, o adoecimento constante mantém a máquina girando.
Diante disso, a pergunta ética não é “quem inventou tudo isso?”, mas sim: Que sistema é esse que lucra mais quando a população adoece?
Porque há um círculo vicioso em pleno funcionamento:
1.Ultraprocessados se popularizam (por preço, praticidade e marketing).
2.Crescem obesidade, diabetes, hipertensão.
3.Aumenta a medicalização cotidiana.
4.Dispara o custo do tratamento.
5.A prevenção continua sendo a parte mais fraca da equação.
E o que deveria ser exceção vira rotina. A doença crônica vira “normal”. E a vida vira uma agenda de receitas, exames e renovações.
No artigo “Tire o plástico dos pés”, falamos, na semana passada, em sentido literal e simbólico, sobre o quanto nos afastamos da natureza. A ideia do “isolamento” pode ser lida para além da sola do sapato emborrachado. Estamos isolados do simples: do alimento de verdade, do preparo caseiro, do tempo da mesa, do corpo em movimento, do sol, do chão, do ritmo natural da vida.
E quanto mais a vida se industrializa, mais a saúde se torna dependente de correções artificiais. Talvez a grande revolução não esteja apenas em descobrir novos remédios, mas em reduzir a necessidade deles.
Comida de verdade, atividade física, sono, vínculo social, contato com a natureza, prevenção séria isso não rende manchetes diárias, mas sustenta o que a medicina, depois, precisa resgatar.
Não se trata de demonizar a indústria farmacêutica nem de negar a medicina ambas são essenciais. Trata-se de reconhecer que saúde não pode ser apenas mercadoria.
Se o lucro cresce na proporção da dependência, então estamos diante de um dilema civilizatório. Não basta discutir remédios mais modernos ou hospitais mais equipados; é preciso repensar o modelo que transforma comida em produto químico e transforma pessoas em consumidores crônicos de tratamentos. Uma sociedade saudável não é aquela que tem mais farmácias por esquina, mas aquela que precisa menos delas.
Se queremos um país com menos doença crônica, precisamos de um modelo que valorize mais o que sustenta a vida do que o que apenas remedia seus danos. Vamos continuar vivendo “administrados”… ou teremos coragem de reaprender a viver de verdade?
*Jornalista, Professor e Escritor
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