RESSOCIALIZAÇÃO
Cursos profissionalizantes ajudam mulheres privadas de liberdade a reconstruírem suas trajetórias em MS
Capacitações oferecidas pela Agepen ampliam oportunidades de trabalho, fortalecem a autoestima e incentivam a reinserção social
15/06/2026
08:00
REDAÇÃO
MARIA GORETI
Reeducandas participam de cursos profissionalizantes que unem capacitação técnica e desenvolvimento pessoal para ampliar oportunidades após o cumprimento da pena. @Divulgação/Agepen
Em uma sala de aula instalada dentro de uma unidade prisional, o aprendizado tem se transformado em ferramenta de mudança de vida. Em Mato Grosso do Sul, mulheres privadas de liberdade estão encontrando novas oportunidades por meio de cursos profissionalizantes promovidos pela Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário), em parceria com instituições de ensino e programas governamentais.
Mais do que ensinar uma profissão, a iniciativa busca oferecer condições reais para a reinserção social, reduzindo a reincidência criminal e ampliando as perspectivas de futuro para quem cumpre pena no sistema prisional.
Uma das principais ações em andamento é o curso de copeira, desenvolvido por meio do Programa Pronatec Mulheres Mil. A capacitação atende reeducandas da Capital e do interior do Estado, proporcionando formação técnica e desenvolvimento pessoal.
Com carga horária de 160 horas, o curso é dividido em dois módulos e contempla conteúdos como português, matemática, informática, higiene e manipulação de alimentos, preparo de bebidas e lanches, atendimento ao público, empreendedorismo e direitos trabalhistas.
As aulas são realizadas em unidades prisionais femininas de Campo Grande, incluindo o Estabelecimento Penal Feminino Irmã Irma Zorzi e a unidade de regime semiaberto e aberto, além de cidades do interior, como São Gabriel do Oeste. Em Rio Brilhante, as internas participam de capacitação voltada para a área de vendas.
A proposta da Agepen é transformar o sistema prisional em um espaço de preparação para a vida em liberdade, oferecendo ferramentas que permitam aos custodiados construir novas oportunidades após o cumprimento da pena.
Segundo o diretor-presidente da Agepen, Rodrigo Rossi Maiorchini, a educação e a qualificação profissional são fundamentais nesse processo.
“Nosso compromisso é garantir que essas pessoas tenham acesso real a oportunidades quando deixarem o sistema. A educação e a qualificação profissional são ferramentas essenciais para quebrar ciclos e permitir que novas histórias sejam construídas com dignidade, autonomia e responsabilidade”, afirma.
A diretora de Assistência Penitenciária, Maria de Lourdes Delgado Alves, ressalta que as mudanças acontecem diariamente, muitas vezes longe dos olhos da sociedade.
“Quando essas portas se abrirem, não serão apenas pessoas deixando o sistema prisional. Serão histórias que carregam, agora, a possibilidade real de um novo começo”, destaca.
Além dos cursos atuais, a Agepen prevê para 2026 mais de 2 mil vagas em capacitações presenciais destinadas a homens e mulheres privados de liberdade, abrangendo áreas como construção civil, marcenaria, informática, corte e costura, serviços administrativos e beleza.
Também estão previstas formações na modalidade a distância por meio de parcerias, incluindo cursos nas áreas de educação, saúde, empreendedorismo, administração, informática e idiomas.
Além do conhecimento técnico, os cursos trabalham aspectos relacionados à convivência, cidadania e comportamento profissional.
A coordenadora do curso de copeira, a nutricionista Mariana Biava de Menezes, destaca que a qualificação representa um patrimônio permanente para as participantes.
“O conhecimento ninguém tira. E este curso também trabalha aspectos importantes de convivência e atendimento ao público”, explica.
A professora Aline Tostes Palma Barbosa observa que as mudanças vão além da sala de aula.
“É perceptível a mudança no comportamento, no respeito e na forma como elas passam a se enxergar”, relata.
Segundo a supervisora local Danieli Verruck Guedes, a qualificação ajuda a recuperar a autoconfiança das internas.
“Elas passam a acreditar novamente que são capazes. Já vimos casos de mulheres que, após cursos como esse, conseguiram emprego e reconstruíram suas trajetórias”, afirma.
Entre as participantes, o sentimento predominante é a esperança de construir um novo futuro.
A reeducanda C.P., de 49 anos, que já trabalhava com produção de salgados antes da prisão, acredita que o curso ajudará a aperfeiçoar seus conhecimentos e ampliar suas possibilidades de atuação.
“Esse curso vai contribuir muito para minha vida e me dar mais esperança para recomeçar”, diz.
Já M.G.M., de 39 anos, vê a capacitação como uma oportunidade para ampliar horizontes profissionais.
“Está me ajudando muito e abrindo novas portas”, afirma.
No regime semiaberto, M.J.S.S., de 39 anos, destaca que a formação representa sua primeira oportunidade de qualificação profissional.
“Esse curso é uma chance de aprender uma profissão e mostrar para minha família que quero mudar”, relata.
A custodiada T.A.J., de 46 anos, já planeja continuar estudando.
“Quero fazer outros cursos. Isso aqui é só o começo”, afirma.
Em São Gabriel do Oeste, A.D.G., de 42 anos, destaca os impactos na autoestima e no desenvolvimento pessoal.
“Hoje tenho mais autoconfiança. Estou aprendendo não só uma profissão, mas também sobre convivência, comunicação e empreendedorismo”, conta.
Já em Rio Brilhante, a interna I.C.P.V., de 26 anos, vê na capacitação em vendas uma oportunidade de transformação.
“Estou começando a acreditar que posso trabalhar, ter minha renda e seguir outro caminho. É uma oportunidade que faz a gente pensar diferente sobre o futuro”, relata.
O Programa Mulheres Mil é uma iniciativa do Governo Federal desenvolvida em Mato Grosso do Sul em parceria com a Secretaria de Estado de Educação. A proposta busca ampliar o acesso à educação profissional para mulheres em situação de vulnerabilidade e, dentro do sistema prisional, tem se consolidado como uma importante ferramenta de inclusão, cidadania e ressocialização.
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