SEMANA DE COMBATE AO FEMINICÍDIO
Histórias de dor e superação marcam Semana de Combate ao Feminicídio em Mato Grosso do Sul
Relatos de familiares de vítimas reforçam a necessidade de ampliar ações de prevenção, acolhimento e enfrentamento à violência contra a mulher
03/06/2026
08:00
REDAÇÃO
MARIA GORETI
Semana Estadual de Combate ao Feminicídio reforça a importância da prevenção, da denúncia e do fortalecimento da rede de proteção às mulheres em Mato Grosso do Sul. @Divulgação
A Semana Estadual de Combate ao Feminicídio, realizada em Mato Grosso do Sul, traz à tona histórias que evidenciam o impacto devastador da violência contra a mulher. Mais do que números, os casos representam vidas interrompidas, famílias destruídas e marcas que permanecem por gerações.
Uma dessas histórias é a de Leise Aparecida Cruz, assassinada em março de 2023, aos 40 anos, pelo marido, em Anastácio. O crime, inicialmente tratado como morte natural, teve sua verdadeira causa revelada após perícia identificar sinais de asfixia. O autor confessou o feminicídio e foi condenado a 30 anos e seis meses de prisão.
A filha de Leise, Leisiane Aparecida Cruz Vieira, vive uma realidade marcada pela dor e pela esperança. Ela descobriu que estava grávida no dia do velório da mãe e aguarda o nascimento da filha, Maria Júlia Aparecida Cruz Vieira. O nome escolhido carrega uma homenagem à avó que a criança nunca conhecerá.
Segundo familiares, Leise vivia um relacionamento marcado por comportamentos abusivos, controle e ciúmes. Após o crime, a família divulgou um manifesto ressaltando que o feminicídio não foi um ato impulsivo, mas o resultado de um longo ciclo de violência.
Outra história que simboliza as consequências do feminicídio é a da técnica de enfermagem Karolina Silveira Pereira, assassinada aos 22 anos pelo ex-namorado após meses de violência psicológica e chantagens emocionais. O agressor também matou um amigo da jovem que tentou defendê-la.
Três anos
após o crime, a mãe de Karolina, Patrícia da Silva Leite, afirma que as marcas da tragédia continuam presentes na rotina da família.
Além da perda da filha, a família precisou abandonar a casa recém-adquirida por medo de represálias. Patrícia relata que o processo de reconstrução emocional é lento e exige acompanhamento psicológico constante.
Ela também defende que o acolhimento às famílias das vítimas precisa ser fortalecido, garantindo suporte contínuo para quem permanece enfrentando as consequências da violência.
Dados do Observatório da Cidadania da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) apontam que o Estado registrou 394 vítimas de feminicídio entre 2015 e 2026, considerando os dados parciais deste ano.
O levantamento mostra que os maiores registros ocorreram em 2024, com 45 casos, seguido de 2022, com 44 vítimas, e de 2020, com 40 ocorrências. Em 2025 foram contabilizados 39 feminicídios. Em 2026, até o momento analisado, já haviam sido registrados 13 casos.
Os números demonstram que o feminicídio permanece como um dos mais graves problemas sociais e de segurança pública em Mato Grosso do Sul.
Para a juíza da 3ª Vara da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Tatiana Decarli, o enfrentamento ao feminicídio exige ações integradas entre punição, proteção e educação.
Segundo a magistrada, o endurecimento das leis é importante, mas precisa estar acompanhado da certeza da punição e da rápida atuação do sistema de Justiça diante dos primeiros sinais de violência.
Ela destaca ainda a necessidade de fortalecer a rede de proteção às vítimas, ampliar os canais de denúncia e levar os serviços especializados aos municípios menores, onde a incidência de feminicídios é significativa.
Tatiana também defende a inclusão de debates sobre igualdade de gênero e respeito nas escolas como forma de combater, desde cedo, comportamentos que alimentam a violência contra as mulheres.
Autor da Lei Estadual nº 5.202/2018, que instituiu a Semana de Combate ao Feminicídio em Mato Grosso do Sul, o deputado estadual Professor Rinaldo Modesto destaca que os números continuam alarmantes.
Segundo ele, cada feminicídio representa uma vida interrompida, uma família destruída e filhos que carregam para sempre as consequências da violência.
Além da criação da semana de conscientização, a Assembleia Legislativa também aprovou outras medidas voltadas ao enfrentamento da violência doméstica, como a Emenda Constitucional nº 87, de autoria do deputado estadual Zé Teixeira, que impede condenados por violência doméstica de ocuparem cargos públicos estaduais.
As histórias de Leise e Karolina reforçam que o combate ao feminicídio exige vigilância permanente, fortalecimento das políticas públicas e o compromisso de toda a sociedade para impedir que novas vidas sejam interrompidas pela violência.

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