Campo Grande (MS), Segunda-feira, 20 de Julho de 2026

ECONOMIA

Especialistas alertam para aumento do endividamento com uso excessivo de crédito

Oferta de parcelamentos e facilidade de financiamento têm levado consumidores a comprometer renda mensal

13/05/2026

08:00

REDAÇÃO

Facilidade de parcelamento e uso excessivo de crédito preocupam especialistas diante do aumento do endividamento das famílias brasileiras.  @Joédson Alves/Agência Brasil

O uso frequente de crédito para despesas do dia a dia tem contribuído para o aumento do endividamento das famílias brasileiras, segundo especialistas ouvidos em reportagem da Agência Brasil. A facilidade de parcelamento em compras comuns, como supermercado, farmácia e combustível, tem levado muitos consumidores a utilizar o crédito como complemento da renda mensal.

A prática, cada vez mais comum, preocupa economistas e especialistas em educação financeira, que alertam para o risco de desorganização do orçamento e crescimento da inadimplência.

A socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), afirma que o crédito deveria ser utilizado principalmente para aquisição de bens duráveis e de maior valor, e não para despesas rotineiras.

“Estamos vendo muitas pessoas utilizando o crediário para pagar contas do orçamento mensal”, afirmou.

Segundo ela, o problema ocorre quando o consumidor passa a enxergar o crédito como extensão da renda, comprometendo parte do salário futuro com parcelas contínuas.

A economista Katherine Hennings, pesquisadora associada da Fundação Getulio Vargas (FGV) e analista da BRCG Consultoria, destaca que a facilidade de acesso ao crédito também estimula a chamada “ansiedade de consumo”.

De acordo com a especialista, o excesso de estímulos publicitários e recomendações feitas nas redes sociais incentivam compras por impulso.

“Há diversos apelos à compra, e as pessoas têm acesso ao crédito, o que viabiliza anteciparem o consumo”, explicou.

Ela alerta ainda que muitos consumidores avaliam apenas se a parcela cabe no orçamento mensal, sem considerar o impacto total da dívida e os juros envolvidos na operação.

O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes, afirma que o brasileiro costuma pesquisar preços de produtos, mas raramente compara os custos dos financiamentos.

“O consumidor verifica se a prestação cabe no orçamento, mas nem sempre analisa quanto pagará de juros”, ressaltou.

Outro ponto destacado pelos especialistas é o uso equivocado do limite do cartão de crédito e do cheque especial como se fossem renda disponível.

A economista Isabela Tavares, da Consultoria Tendências, alerta que o limite oferecido pelas instituições financeiras não representa aumento salarial.

“Quem ganha R$ 5 mil e possui limite de cartão de crédito de R$ 5 mil não tem renda de R$ 10 mil”, explicou.

Ela destaca que o descontrole financeiro pode levar o consumidor a recorrer a modalidades de crédito mais caras, como o rotativo do cartão, cheque especial e parcelamentos com juros elevados.

Dados do Banco Central mostram que a inadimplência das famílias no Sistema Financeiro Nacional chegou a R$ 238,5 bilhões em março deste ano, o equivalente a 5,3% do total de crédito concedido às famílias brasileiras.

Já levantamento da Serasa Experian aponta que 81,7 milhões de brasileiros estão inadimplentes atualmente. Segundo o estudo, 47,1% das dívidas em atraso são com bancos e instituições financeiras.

Entre os inadimplentes, 78% possuem renda de até dois salários mínimos, grupo considerado mais vulnerável ao uso de empréstimos com juros elevados.

Para especialistas, a ampliação da educação financeira é essencial para reduzir o problema e evitar que consumidores utilizem crédito de maneira inadequada.


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