CIÊNCIA E MATERNIDADE
Iniciativas buscam ampliar permanência de mães na carreira científica no Brasil
Pesquisadoras enfrentam queda de produtividade, dificuldade de acesso a bolsas e obstáculos para permanecer na academia após a maternidade
18/05/2026
07:25
REDAÇÃO
MARIA GORETI
Pesquisadoras brasileiras enfrentam desafios para conciliar maternidade e carreira científica, enquanto universidades e instituições ampliam políticas de permanência e apoio às mães na academia @Tânia Rêgo/Agência Brasil
Mesmo formando mais doutoras do que doutores há mais de duas décadas, o Brasil ainda enfrenta desigualdade na presença feminina dentro da carreira científica. Mulheres seguem sendo minoria entre professores de graduação e pós-graduação e recebem apenas um terço das bolsas de produtividade acadêmica destinadas aos pesquisadores de maior destaque.
O cenário se torna ainda mais desafiador para cientistas que são mães. Estudos e iniciativas recentes apontam que a maternidade impacta diretamente a permanência e o crescimento profissional das pesquisadoras no ambiente acadêmico.
A pesquisadora Fernanda Staniscuaski, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, afirma que muitas mulheres acabam entrando em um ciclo difícil de romper após a chegada dos filhos.
Segundo ela, a redução temporária da produtividade acadêmica pode gerar menos oportunidades de financiamento, bolsas e orientação de estudantes, afetando toda a trajetória profissional.
Em 2016, Fernanda fundou o movimento Parents in Science ao lado de outras mães e um pai pesquisadores. A iniciativa reúne atualmente mais de 90 cientistas e atua na produção de estudos sobre parentalidade na ciência.
Um levantamento recente do grupo analisou a entrada e permanência de docentes em programas de pós-graduação e identificou diferenças expressivas entre pais e mães pesquisadores.
Entre os homens, 43,7% deixaram programas de pós-graduação por decisão própria e 37,5% foram descredenciados por perda de produtividade. Já entre as mulheres, 66,1% foram descredenciadas por não atingirem a produção mínima exigida.
O estudo também mostrou maior dificuldade de retorno das mães ao sistema acadêmico após o desligamento. Entre aquelas que saíram por queda de produtividade, 38% não conseguiram retornar à pós-graduação, contra 25% dos pais.
A discussão também envolve questões raciais e sociais. Mulheres pretas, pardas e indígenas continuam sendo as mais sub-representadas dentro da ciência brasileira, além das mães de crianças com deficiência.
DIFICULDADES COMEÇAM NA GRADUAÇÃO
Os desafios para mães estudantes aparecem ainda no período universitário. A assistente social Cristiane Derne, atualmente mestranda da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, relata que enfrentou dificuldades para permanecer na graduação enquanto conciliava maternidade, trabalho e estudos.
Ela estudou na Universidade Federal do Rio de Janeiro e conta que muitas mães acabam desistindo da universidade pela ausência de rede de apoio e pela dificuldade em cumprir atividades acadêmicas.
Um levantamento do Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade mostrou que 63 das 69 universidades federais oferecem algum tipo de auxílio financeiro para mães estudantes, com valor médio de R$ 370 mensais. Porém, apenas 13 instituições estendem esse benefício para alunas de mestrado e doutorado.
O estudo também identificou que somente oito universidades possuem cuidotecas, espaços destinados ao acolhimento de crianças enquanto as mães estudam.
Neste ano, o Ministério da Educação lançou edital de R$ 20 milhões para ampliar a implantação desses espaços em instituições federais.
NOVAS POLÍTICAS E INCENTIVOS
No Rio de Janeiro, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro lançou em 2024 o primeiro edital exclusivo para mães cientistas em parceria com o movimento Parents in Science e o Instituto Serrapilheira.
A iniciativa apoiou 134 pesquisadoras e deverá ganhar nova edição em 2027.
A presidente da Comissão Permanente de Equidade, Diversidade e Inclusão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, Letícia de Oliveira, afirma que os editais compensatórios são necessários porque mulheres mães acabam prejudicadas em processos seletivos tradicionais.
Outra medida adotada pela fundação permite ampliar o período de avaliação curricular de mulheres que tiveram filhos recentemente, levando em conta a redução temporária de produtividade causada pela licença-maternidade.
A presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Denise Pires de Carvalho, destaca que a diversidade fortalece a ciência e amplia a capacidade de produção de conhecimento.
Recentemente, a Capes lançou o programa Aurora, que prevê até 300 bolsas para pesquisadoras gestantes ou mães. O objetivo é permitir que professoras contem com pesquisadores de pós-doutorado atuando como apoio durante o período da licença-maternidade.
Além das ações institucionais, mudanças na legislação também passaram a garantir mais proteção às mães estudantes e pesquisadoras.
Desde 2024, uma lei federal ampliou em seis meses o prazo de conclusão de cursos de graduação e pós-graduação em casos de gestação, parto, adoção ou guarda judicial.
Já em 2025, entrou em vigor outra legislação que proíbe discriminação por maternidade em processos seletivos e renovações de bolsas acadêmicas.
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