Campo Grande (MS), Segunda-feira, 06 de Julho de 2026

Incesto: 'Tento perdoar', diz mulher que teve seis filhos com o próprio pai no AC

13/04/2015

13:56

CMS


J�lia foi resgatada em 2012 e hoje vive com os filhos em uma casa alugada.�Eu n�o sabia que era errado�, defende-se acusado.


J�lia com os seis filhos que teve com o pai
(Foto: T�cita Muniz/G1)

H� quase tr�s anos, J�lia Pinheiro das Chagas, de 31 anos, foi resgatada pela pol�cia na comunidade Lago dos Paus, no Rio Greg�rio (AM). Atualmente ela mora em uma casa alugada com seis filhos, frutos de uma rela��o incestuosa que manteve por anos com o seu pai, Jo�o das Chagas Ribeiro Mour�o, de 66 anos. H� dois, ele cumpre a senten�a no regime fechado no pres�dio Manoel Neri, em Cruzeiro do Sul, distante 648 quil�metros da capital acreana. As marcas do passado ainda fazem J�lia chorar.

A dona de casa conta que vive com a ajuda de Aluguel Social, oferecido pela prefeitura da cidade, que abriga ela e os seis filhos. T�mida e com o vocabul�rio restrito, J�lia relembra a vida que tinha ao lado do pai. �Eu engravidei oito vezes, mas os dois mais velhos morreram. Eu n�o sabia que era errado, n�o entendia nada disso. S� percebi que tinha algum problema quando meus filhos come�aram a ter defici�ncia, sabia que eles n�o eram normais�, conta ao G1.

"Engravidei oito vezes, mas os dois mais velhos morreram. Eu n�o sabia que era errado"
         J�lia das Chagas


Todos t�m algum tipo de defici�ncia. O que apresenta o estado mais cr�tico � o filho de 6 anos: ele n�o anda devido a uma defici�ncia motora e tamb�m tem uma esp�cie de descama��o na pele. Outra filha, uma garotinha de 11 anos, tamb�m tem dificuldades de relacionamento.

�Tem dias que a minha filha passa o dia sem comer, n�o fala com a gente. Fica pelos cantos, acho que ela tem uma lembran�a bem forte de tudo que aconteceu�. Durante a entrevista, a menina n�o comentou nada. Ela disse � m�e que n�o gosta de ir nem mesmo � escola, porque l� tem de enfrentar muitas pessoas. Sobre as lembran�as do que viveu com seu pai/av�, ela prefere o sil�ncio.

'Penso em procur�-lo'

Questionada se um dia pretende reencontrar o pai, J�lia diz que tenta aos poucos perdoar o que Jo�o fez com ela e com as crian�as. �Eu penso em procur�-lo para que ele possa ver as crian�as, porque quando ele foi preso, nossos filhos eram todos bem pequenos. Tive muita raiva dele, mas agora estou tentando esquecer. Posso at� perdoar, porque quem quer o perd�o, perdoa. Mas, �s vezes, � dif�cil falar�, diz emocionada.


Jo�o alega que J�lia n�o � sua filha de sangue e diz que incesto � comum na comunidade em que
vivia (Foto: T�cita Muniz/G1)

A dona de casa relembra que quando vivia com o pai n�o tinha contato com ningu�m, pois Jo�o a fazia guardar segredo sobre a vida a dois. �Eu n�o ia � cidade e ele pedia muito que eu n�o contasse para ningu�m que ele era meu pai�, conta.

A mulher diz que tenta n�o conversar com os filhos sobre o que aconteceu e acredita que os meninos n�o sintam saudades do pai, que, segundo ela, batia neles. J�lia tamb�m conta que era agredida com frequ�ncia.

No dia do resgate, em 2012, ela recorda nitidamente a chegada da pol�cia. �A gente estava cuidando da farinha e eu estava dentro de casa, porque ele tinha acabado de me bater. Ele batia muito a minha cabe�a na parede da casa.�

"Tive muita raiva dele, mas agora estou tentando esquecer. Posso at� perdoar, porque quem quer o perd�o, perdoa. Mas, �s vezes, � dif�cil falar"

         J�lia das Chagas


Ao lado dos seis filhos, J�lia n�o cont�m as l�grimas ao ver a foto do pai dentro da cadeia. � reportagem, ela diz que o choro � de raiva e m�goa de tudo o que aconteceu, mas ela repete entre l�grimas que perdoaria Jo�o.

Desde o acontecido, J�lia diz que n�o tem mais contato com a m�e e nem sabe se ela est� viva. Segundo ela, a mulher mora em uma comunidade �s margens do Rio Tarauac�.

O G1 tamb�m tentou encontrar informa��es sobre a m�e de J�lia, mas foi informado pela Delegacia da Mulher, que presidiu o inqu�rito sobre o caso, que o endere�o da m�e de J�lia est� registrado como indeterminado.


J�lia diz que todos os filhos apresentam alguma defici�ncia f�sica ou mental
(Foto: T�cita Muniz/G1)

�Ela n�o � minha filha�

Aos 66 anos, Jo�o est� h� quase 3 dentro do pres�dio. Durante este per�odo, nenhuma visita a ele foi registrada. Por meio de uma autoriza��o da justi�a, o G1 entrou no pres�dio Manoel Neri e ouviu a vers�o do produtor rural que viveu com a filha entre 2002 a 2012. Em sua defesa, ele afirma que J�lia n�o � sua filha de sangue. No entanto, n�o pediu exame de DNA para provar o que diz. Na certid�o de nascimento de J�lia, n�o h� informa��es sobre a m�e, apenas dados de Jo�o. 

"A culpa que eu tenho, ela tem tamb�m. Porque ela sa�a da rede dela para ir para a minha."
Jo�o das Chagas

�Eu nasci e me criei na mata, n�o sabia o que era crime e nem justi�a. Eu s� vi que tinha errado depois que a pol�cia bateu nas minhas terras e agora pago pelos meus erros. Mas ela n�o � minha filha de sangue. Eu que criei, mas a m�e dela me disse que o pai da J�lia � um homem que mora em outra cidade�, defende-se.

Mesmo com a alega��o, ele diz que n�o h� documentos que provem que n�o existe essa liga��o sangu�nea. Ele apenas confia na palavra da mulher com quem era casado.

Sobre as agress�es contra os filhos e J�lia, ele nega. �Esse crime eu n�o tenho. Quero que Deus mande um castigo para as minhas m�os ca�rem se algum dia eu bati em uma daquelas crian�as ou nela�, diz.

Hoje, cumprindo uma senten�a de 22 anos de pris�o, Jo�o se diz arrependido. �J� chorei, chorei mesmo. Queria ver meus filhos. Desde que fui preso, n�o tive nenhum contato com eles�, desabafa.

O relacionamento

Jo�o conta que passou a se interessar pela filha quando ela tinha 20 anos. Por�m, ele alega que os anos vividos com a filha foram com o consentimento dela.

�A culpa que eu tenho, ela tem tamb�m. Porque ela sa�a da rede dela para ir para a minha. Eu nunca fui atr�s dela, tanto que na primeira vez que ela foi na minha rede eu n�o quis fazer nada, mas na segunda eu fiz o servi�o�, alega. Nesse per�odo, ele diz que j� estava separado de sua mulher e morava com um filho nas terras no seringal Bacurim, no Amazonas.

Sobre a rela��o com seus filhos/netos, ele conta que sempre os tratou bem. �N�o deixava faltar alimento, quero bem meus filhos�, destaca.

Jo�o tamb�m alega que n�o sabia que era errado viver maritalmente com a pr�pria filha e ressalta ainda que casos assim eram comuns. �Onde eu morava, n�o era somente eu que cometia esses erros. L� tem muita gente que vive com sobrinhas e filhas. Naquele seringal estava sendo muito comum.�


Jo�o chora ao ver as fotos dos filhos e de J�lia durante a entrevista
(Foto: T�cita Muniz/G1)

Visitas

Sem receber nenhuma visita, Jo�o diz que sofre com o abandono dos outros filhos. �Fica dif�cil, porque eu sou uma pessoa doente e n�o tem quem me ajude, quem pode me ajudar s�o meus filhos, mas eles n�o v�m me visitar�, lamenta.

Para cumprir pena no regime semiaberto, Jo�o precisa ficar oito anos e oito meses no fechado. Ao ser questionado se ele acredita que sair� com vida da cadeia, ele � categ�rico. �Est� nas m�os de Deus. Eu pretendo, se eu sair, voltar para as minhas terras, l� ficou tudo abandonado.�

A condena��o de Jo�o re�ne estupro, atentado ao pudor, sequestro, constrangimento � mulher e crimes contra a assist�ncia familiar, configurado pelo abandono intelectual. Ele est� preso desde o dia 13 de julho de 2012, mesmo m�s que J�lia foi resgatada na comunidade do Rio Greg�rio.

Antes de voltar para a cela, a equipe mostra fotos dos filhos de Jo�o, que chora compulsivamente por alguns minutos. Entre l�grimas ele diz: �� dif�cil, gostaria muito de ver meus filhos�, finaliza.



Do G1 AC
Por:T�cita Muniz




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