Campo Grande (MS), Segunda-feira, 06 de Julho de 2026

Travesti fica desfigurada após prisão; Defensoria diz haver indício de tortura

16/04/2015

17:08

CMS


Ela � suspeita de agredir idosa e tentar arrancar orelha de carcereiroPrefeitura de SP recebeu den�ncia; imagens mostram agress�o.


Travesti fica desfigurada ap�s pris�o; Defensoria diz haver ind�cio de tortura
 (Foto: Reprodu��o/Facebook; Foto: Divulga��o/Defensoria P�blica)

A travesti Ver�nica Bolina acusa policiais militares e civis de agredi-la quando foi presa em S�o Paulo, de acordo com nota divulgada por �rg�o da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. Ver�nica foi detida na sexta-feira (10) por suspeita de tentar matar uma vizinha idosa. Depois, no domingo (12) arrancou a dentadas a orelha de um carcereiro dentro de um distrito policial.

O G1 teve acesso a fotografias feitas pela Defensoria P�blica que mostram Ver�nica com o rosto inchado e desfigurado, al�m de les�es e hematomas na barriga e nas costas. Grava��es nas quais a travesti isenta os policiais de tortura s�o questionadas pela Defensoria (ou�a e leia mais abaixo).

Para o n�cleo especializado de combate � discrimina��o da Defensoria P�blica, h� ind�cios de tortura, maus-tratos, excessos, abusos, exposi��o indevida da imagem, coa��o e constrangimento ilegal envolvendo a pris�o e conten��o de Ver�nica.

"H� suspeita de tortura em virtude de como o rosto de Ver�nica ficou desfigurado", diz a defensora p�blica Juliana Belloque. "� dif�cil acreditar que para conter uma presa ela tenha que ficar com o rosto espancado".

A den�ncia de agress�o foi feita, inicialmente, ao Centro de Cidadania L�sbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (LGBT), vinculado � Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de S�o Paulo. Campanha na internet #SomostodasVer�nica pede respeito �s travestis.

Nota divulgada pelo Centro de Cidadania informa que Charleston Alves Francisco, de 25 anos, que usa o nome social de Ver�nica Bolina, relatou �ter sofrido agress�o em v�rios momentos por parte de policiais militares e de "preto", fazendo refer�ncia aos agentes do Grupo de Opera��es Estrat�gicas (GOE), ocorridas no momento de sua pris�o� e �durante o epis�dio em que atacou o carcereiro da Pol�cia Civil por conta de uma troca de cela e no Hospital do Mandaqui quando do atendimento m�dico�.

Ver�nica foi presa na sexta-feira (10) por suspeita de tentativa de assassinato a uma vizinha idosa. No domingo (12), a travesti supostamente se envolveu em confus�o com outros presos e foi acusada de arrancar a dentadas a orelha de um carcereiro.

A equipe de reportagem n�o conseguiu falar com Ver�nica, que permanece detida no 2� Distrito Policial, Bom Retiro, a espera de uma vaga no sistema prisional. Segundo a nota do Centro, agora, Ver�nica est� numa �cela individual e tem garantido o uso de suas roupas femininas e peruca de uso pr�prio, respeitando a sua identidade de g�nero�.

O Centro informou ainda que �intermediou o encontro de Ver�nica com sua m�e, Marli Ferreira Alves Francisco� e que est� dando �assessoria jur�dica e psicol�gica� � fam�lia da travesti.

Conduta dos policiais

A Secretaria da Seguran�a P�blica (SSP) informou que a Corregedoria da Pol�cia Civil instaurou procedimento para apurar a conduta dos policiais envolvidos na conten��o de Ver�nica e vazamento de fotos envolvendo o caso.

Segundo o delegado Luiz Roberto Hellmeister, titular do 2� DP (Bom Retiro), Ver�nica foi indiciada por tentar matar uma senhora de 73 anos, resist�ncia e tentativa de evas�o, entre outros crimes.

Feridas e hematomas s�o vistos na barriga e nas costas de Ver�nica Bolina
 (Foto: Divulga��o)

Ela foi ouvida na tarde desta quarta-feira. De acordo com a Secretaria da Seguran�a P�blica, os policiais que ouviram o depoimento afirmam que ela confirmou que, quando estava detida em uma cela, exp�s a genit�lia e come�ou a se masturbar, o que provocou a revolta dos outros presos.

De acordo com a vers�o da pol�cia, para conter a situa��o, um carcereiro entrou na cela para retir�-la, quando Ver�nica o atacou com uma mordida na orelha. O delegado esclarece que Ver�nica se machucou durante esses confrontos.

O delegado apontou, ainda em nota divulgada pela secretaria, que Ver�nica, por causa da sua condi��o sexual, pode solicitar uma sala separada do restante dos presos, mas que n�o houve esse pedido. Ver�nica permanece na delegacia de maneira provis�ria, at� a destina��o para uma unidade da Secretaria de Administra��o Penitenci�ria.

Sobre a queixa de que o cabelo de Ver�nica teria sido cortado, o delegado esclarece que ela j� tinha cabelos curtos quando chegou � delegacia, pois costumava usar peruca antes de ser presa", diz a nota.

Grava��es questionadas

A defensora p�blica Juliana Belloque tamb�m quer saber como foram gravados os dois arquivos de �udios (ou�a ao lado) no qual Ver�nica diz que n�o foi torturada e isenta os policiais de qualquer agress�o.

A grava��o foi feita durante visita da Coordenadora de Pol�ticas para a Diversidade Sexual do Estado de S�o Paulo, Heloisa Alves. O org�o � vinculado � Secretaria da Justi�a e da Defesa da Cidadania do governo estadual.

"Eles reagiram dentro de suas leis� e era direito deles agirem �para cont�-la�, diz Ver�nica em uma das grava��es. Em redes sociais e grupos de WhatsApp tamb�m circula �udio no qual Helo�sa Alves afirma que divulga as grava��es para ajudar a esclarecer d�vidas. O G1 tenta falar com Helo�sa, mas n�o obteve retorno.

Na quarta-feira (15), outras defensoras p�blicas foram ao 2� DP conversar com Ver�nica, que, reiterou o que havia dito no �udio divulgado na internet. Na ocasi�o, um delegado e um carcereiro estavam presentes no mesmo ambiente onde a travesti era ouvida pela Defensoria P�blica.

"N�o foi permitido contato reservado das defensoras com a presa, permanecendo o delegado e o carcereiro ao lado durante a entrevista, afirmando que a ela que �deveria falar a verdade, sem aumentar nem diminuir" Juliana Belloque, defensora p�blica

�N�o foi permitido contato reservado das defensoras com a presa, permanecendo o delegado e o carcereiro ao lado durante a entrevista, afirmando que a ela que �deveria falar a verdade, sem aumentar nem diminuir�, bem como sabia que diante dela ter arrancado a orelha de um agente �teria ficado barato��, disse Juliana.

Para a defensora, o �udio disponibilizado na web e as declara��es de Ver�nica � Defensoria P�blica foram feitos na delegacia onde ela foi agredida anteriormente e sob a presen�a de policiais, o que sugere constrangimento.

�Tal cen�rio evidencia uma situa��o de constrangimento nas declara��es dela, num ambiente que, em tese, sofreu agress�es e maus-tratos�, disse Juliana. �A presen�a dos policiais foi ostensiva e intimidat�ria�.

No pedido feito pela Defensoria P�blica � 1� Vara do J�ri da Capital est� solicita��o para que Veronica seja ouvida novamente pelas defensoras no F�rum da Barra Funda, na presen�a de um juiz.

�Ver�nica precisa dar suas declara��es num ambiente longe de onde houve aquela confus�o at� para que n�o fique constrangida ou intimidada�, disse Juliana.

Imagem da campanha #SomosTodasVer�nica
 (Foto: Reprodu��o/Facebook)

#SomostodasVer�nica

A divulga��o de fotos de Ver�nica Bolino detida, com os cabelos raspados, rosto desfigurado e com os seios � mostra indignou organiza��es de direitos LGBT, que criaram o movimento #SomostodasVer�nica nas redes sociais. Uma p�gina sobre o tema foi criada no Facebook e os organizadores afirmam que ela teve �a dignidade jogada fora�.

�Ver�nica apareceu numa foto. Seus cabelos estavam raspados, seu rosto desfigurado, sua roupa arrancada, sua dignidade jogada fora. Disseram que Veronica roubou alguma coisa. Ou que ela foi presa porque mordeu um policial. O motivo n�o importa, as fotos que mostram Ver�nica neste estado mostra que ela n�o foi tratada como cidad�, como pessoa. Ela foi tratada como um objeto que n�o gostamos, amassamos, rasgamos e jogamos fora sem muita import�ncia. Ver�nica � mulher trans. Veronica � negra. Veronica � chamada de traveco Tysson e todo mundo ri�, diz uma das frases da campanha.

Imagem da campanha #SomosTodasVer�nica
(Foto: Reprodu��o/Facebook)
O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) aderiu � campanha e divulgou longo texto em defesa de Ver�nica, contra a transfobia e em defesa dos direitos humanos. Para o deputado, ela foi exposta pela pol�cia, quem a deveria defender.

Ele colocou sua equipe � disposi��o da fam�lia de Ver�nica e levar� a hist�ria � Comiss�o de Direitos Humanos da C�mara � CPI da Viol�ncia contra Jovens Negros e Pobres, � Comiss�o Permanente Mista de Combate � Viol�ncia contra a Mulher e tamb�m � Secretaria de Direitos Humanos da Presid�ncia da Rep�blica para averiguar se, de fato, houve ou n�o tortura.

�Ver�nica Bolino, torturada, humilhada e exposta pela Pol�cia Civil de S�o Paulo, a mesma que deveria proteger seus direitos e sua vida. Quando duas discrimina��es se chocam, como � o caso de Piu [travesti morta] e de Ver�nica, ambas trans negras, esse grupo � colocado em uma das mais vulner�veis situa��es da nossa pir�mide social!", escreveu o parlamentar.

"Uma pesquisa sobre os direitos das trans negras no Brasil, publicada pela ONG internacional Global Rights, corroba a realidade dessa popula��o, impactada desproporcionalmente por diversas formas de viol�ncia f�sica e sexual. Os dados da pesquisa foram apresentados durante uma audi�ncia tem�tica sobre os direitos das pessoas trans negra no Brasil diante na Comiss�o Inter-Americana de Direitos Humanos�, diz Wyllys em sua p�gina no Facebook.

O deputado tamb�m lembra que tem um projeto de lei que garante �o direito de toda pessoa ao reconhecimento de sua identidade de g�nero, protegendo estas pessoas de diversas situa��es que criam constrangimento, problemas, nega��o de direitos fundamentais, constante e desnecess�ria humilha��o, quando n�o de um ataque �s suas integridades f�sicas�.

Fotos que circularam na internet de orelha de carcereiro (� esquerda) arrancada por Ver�nica
 (� direita), que apareceu seminua nas fotografias que vazaram pelo Facebook
 (Foto: Reprodu��o / Facebook)




Do G1 S�o Paulo
Por: Kleber Tomaz e C�ntia Acayaba



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